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Entre Preocupações E Frustração Das Comunidades Locais Operadores Privados Inauguram Lodge Em Massingir
Trata-se do Balule Lodge, uma luxuosa instância turística localizada em Chivovo, a cerca de trinta quilómetros da vila sede do distrito de Massingir, a nordeste da Província de Gaza.

O lodge inaugurado, no dia 28 do passado mês de Maio de 2016, pelo ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural, Celso Correia, pertencente a uma sociedade constituída por três empresários moçambicanos, um sul-africano e um norte-americano.

Os sócios do Balule Lodge são, da parte moçambicana, Eugénio Numaio, antigo governador da Província de Gaza, Samora Machel júnior e Renato Mucavele. Dos sócios expatriados está um magnata norte-americano, cujo nome não foi revelado e o sul-africano, Arnold Pistorius.

Este último é presidente do grupo empresarial Twin City, que actua em diferentes áreas económicas em vários países da região austral de África, com destaque para o ecoturismo e criação e exploração de centros comerciais, dentre estes o Shoprite e o Game, também estabelecidos em Maputo e noutras províncias do país.
Discursando no momento da inauguração daquele empreendimento ecoturístico, o ministro da Terra, Ambiente e Desenvolvimento Rural, considerou o acto de muito importante para o executivo pois, segundo ele, acontecia num momento em que o país necessita de investimentos de vulto em áreas estratégicas, tais como o turismo.

“ Vimos hoje aqui o exemplo do que se pode fazer de bom quando conservamos a nossa biodiversidade. Este projecto é como que uma semente extremamente importante para a estratégia do Governo para as área de conservação, porque mostra que pode trazer muitos benefícios para o país”, sublinhou, o ministro, Celso Correia.

Acrescentando, frisou que a criação e abertura do Balule Lodge ao público enquadrava-se na estratégia do Governo para o sector do turismo, que é a de desenvolver iniciativas empresariais nas áreas de conservação, de modo a conter actividades antropogénicas perniciosas aos ecossistemas, tais como a caça furtiva e o abate ilegal de espécies florestais e, contribuir para o desenvolvimento das comunidades locais.

Referindo-se aos impactos positivos dos investimentos feitos na área do ecoturismo, na zona sul do país, o governante afirmou que a caça furtiva na eco- região dos Libombos, da qual o Balule Lodge e o Parque Nacional do Limpopo fazem parte, está a mostrar sinais de redução e, como consequência, já se regista algum crescimento da população de elefantes, uma das espécies que, juntamente com o rinoceronte, são alvos de matança indiscriminada pelos caçadores furtivos, para a extracção de pontas de marfim e do corno, respectivamente.

Por seu turno, Eugénio Numaio, um dos mentores do Balule Lodge, disse que aquele investimento era um grande contributo para o desenvolvimento da região de Massingir.

“ Foi minha preocupação quando trabalhei cá em Gaza, encontrar solução para o aproveitamento do imenso mato que caracteriza as regiões norte e oeste da Província de Gaza. Quando terminei o meu segundo mandato requeri uma área de 10 mil hectares aqui em Chivovo, para me juntar ao esforço do Governo no desenvolvimento de iniciativas com vista à preservação da biodiversidade e aproveitamento racional dos recursos naturais”, revelou o antigo governador de Gaza.
Eugénio Numaio salientou que após obter o título de uso e aproveitamento da terra, da área acima referida, partiu em busca de parceiros que pudessem financiar o projecto da criação da fazenda do bravio e o respectivo Lodge, tendo encontrado, Arnold Pistorius, da Twin City-Eco-turismo que, juntamente com um magnata norte-americano, injectaram o capital necessário para a materialização da iniciativa. Segundo ele, para a construção do Balule Lodge foram gastos cerca de 350 milhões de randes e as obras duraram oito anos.

A cerimónia de inauguração do Balule Lodge foi marcada pela ausência propositada dos habitantes de Cubo, um povoado vizinho de Chivovo, aldeia onde aquele empreendimento se encontra instalado. A não participação do líder comunitário de Cubo, bem como dos membros da Associação Tlharihane va ka Cubo, na inauguração daquela instância, expressa o seu descontentamento por as suas preocupações não serem atendidas pelos responsáveis da fazenda do bravio, dentro da qual foi construído o Balule Lodge e nem pelo Governo do distrito de Massingir.

As inquietações da comunidade de Cubo são motivadas pela frequente matança do seu gado bovino por leões e pela destruição de culturas alimentares nas suas machambas por elefantes saídos daquela reserva do bravio. Quando os animais selvagens problemáticos evadem a área da comunidade e causam danos ninguém se responsabiliza, disse Cecília Cubai, presidente da Associação Tlharihane va ka Cubo.

Segundo ela, há 17 anos qua a comunidade de Cubo vive este drama, sem que os responsáveis daquela reserva do bravio se dignem vedar a área por onde os leões e elefantes se introduzem no espaço da comunidade.

Os habitantes de Cubo, particularmente os membros da Associação Tlharihane va ka Cubo, constituída por habitantes de Cubo,Chivovo e Mbhindzo, distanciaram-se daquela cerimónia, igualmente, por se sentirem frustrados em relação à iniciativa que têm, desde 2006, de criar uma fazenda do bravio e um lodge comunitário.
A referida fazenda seria estabelecida numa área de cerca de 45 mil hectares, dos 100 mil que pertenciam àquela agremiação. A área foi, na sua totalidade, demarcada e zoneada, tendo as três comunidades recebido, dos Serviços Provinciais de Geografia e Cadastro de Gaza, as respectivas certidões oficiosas.

No ano 2006, a Associação Tlharihane va ka Cubo, estabeleceu uma parceria com a African Wildlife Foundation (AWF), para a materialização do projecto da fazenda e lodge comunitários. Com o apoio daquela fundação elaborou o plano de negócios para a futura reserva e encomendou o Estudo do Impacto Ambiental do projecto, tendo-lhe sido atribuída licença ambiental pelo então Ministério para a Coordenação da Acção Ambiental.

Em finais daquele ano, a AWF comprou, através de fundos doados pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), o material necessário para a vedação da área destinada à reserva comunitária.
O passo seguinte seria a aquisição de animais selvagens para a reserva e alguns doadores já haviam se comprometido a desembolsar o montante necessário. Estranhamente e, num processo pouco claro, a Administração do Distrito de Massingir ordenou, em Outubro de 2007, a paralisação do projecto da criação da reserva do bravio das três comunidades, numa altura em que todos os passos necessários tinham sido dados. A área requerida pela Associação Tlharihane va ka Cubo foi reduzida dos 45 mil para 10 mil hectares.

As parcelas de terra retiradas da área das três comunidades foram atribuídas a operadores privados de fazendas do bravio. Enquanto isso, a Associação Tlharihane va ka Cubo, continua no desespero de não poder materializar o sonho de aproveitar as potencialidades paisagísticas e de ecossistemas endémicos, para o desenvolvimento do ecoturismo, como uma das acções de combate à pobreza.


Notícia Por: Lino Manuel

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