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Moçambique sofre os efeitos das mudanças climáticas desde há 45 anos

Fotografia: INGC
Por: Lino Manuel
Revela um estudo sobre potenciais impactos da variabilidade climática no país, com enfoque nos desatres naturais.
No período entre 1960 a 2005 a temperatura no país aumentou em média 1.1 a 1.6 graus centígrados. O número de noites e dias frios reduziu, aumentando os dias e noites quentes.
O mesmo aconteceu em relação aos dias secos, que passaram a apresentar temperaturas médias máximas mais elevadas, aumentando assim a evaporação durante a estação seca, principalmente no nordeste do país.
Nos últimos quarenta e cinco anos, a época chuvosa iniciou tardiamente, tendo chegado a atrasar em mais de um mês e meio, em alguns locais da zona norte, onde ocorreram as maiores mudanças, indicam os resultados do estudo sobre potenciais impactos da variabilidade climática em Moçambique, com enfoque nos desatares naturais, recentemente apresentados em Maputo.
O referido estudo foi iniciado em Maio de 2008 e concluído em Abril do corrente ano, envolvendo as Universidades Eduardo Mondlane, de Moçambique, do Cabo, na África do Sul e de Edinburgh, na Alemanha, para além do Instituto Internacional para a Análise dos Sistemas Aplicados, da Áustria e da Harvard Medical School, dos Estados Unidos da América. O Estudo envolveu também o Ministério para a Coordenação da Acção Ambiental (MICOA) a Administração Regional de Águas do Sul (ARA-SUL) e os Institutos Nacionais de Meteorologia (INAM), de Gestão de Calamidades (INGC) e de Investigação Agrária de Moçambique (IIAM), bem como outras instituições internacionais de pesquisa, como a CLIMATUS, dos Estados Unidos e a GTZ da Guatemala.
O aumento da temperatura do ar e o atraso no início da época chuvosa no país, como consequência da mudança global do clima, foram constatados a partir da análise dos dados meteorológicos colhidos nas três regiões do país. Com base em modelos de projecção, os mesmos usados pelo Painel Intergovernamental para as Alterações Climáticas (IPCC) determinou-se o que poderá acontecer nos próximos trinta a cinquenta anos, em relação à temperatura e à evapotranspiração potencial, isto é, a perda de água contida no solo por evaporação e nas plantas, por transpiração.
Maputo, Beira e Pemba sob ameaça futura de Ciclones tropicais e subida do nível das águas do mar
Não somente a temperatura no país está a subir gradualmente, desde há quarenta e cinco anos, devido à variabilidade climática ao nível global, como também se regista um aumento do nível das águas do mar, mudanças no regime das chuvas e ocorrência frequente de ciclones mais severos, revela o estudo.
A interpretação de dados sobre o nível das águas do mar em Moçambique no período entre 1960 a 2001, no âmbito do estudo efectuado indicou dois cenários.
Um aumento gradual devido à expansão térmica resultante da subida da temperatura, o que poderá levar a uma subida do nível do mar de 10 a 20 cm até 2060 e, um aumento extremo, causado pela expansão térmica global e pelo degelo das calotes polares. Estes dois factores conjugados, poderão ocasionar uma subida do nível das águas do mar até aproximadamente 5 metros no país, não se sabendo ainda, com exactidão, quando é que esta situação irá ocorrer.
Segundo o estudo que temos vindo a citar, as cidades costeiras de Maputo, Beira e Pemba serão afectadas pela subida do nível das águas do mar e por ciclones tropicais. Previsões desse mesmo estudo indicam que até 2030 a cidade da Beira poderá estar separada do interior, transformando-se numa ilha. O porto e suas infra-estruturas, incluindo vias-férreas, terão de ser deslocados para outros locais.
Enquanto isso, as cidades de Maputo e Pemba sofrerão com ciclones tropicais, que nos últimos vinte e nove anos têm sido mais frequentes e cada vez mais severos.
De 1980 a 1993, Moçambique foi atingido por quatro ciclones tropicais, de menor intensidade. Esta situação veio a mudar, nos três anos seguintes, período no qual ocorreram onze ciclones, dois dos quais de maior intensidade. O ciclone Eline, ocorrido em 1994, com ventos que rondavam os 190 quilómetros por hora, seguido pelo Fávio, em 2007, cujos ventos chegaram a atingir cerca de 165 quilómetros por hora.
Intrusão salina irá afectar extensas áreas nas Bacias Hidrográficas do Zambeze, Búzi e Save
A intrusão salina é outro fenómeno que vai ocorrer no país em consequência da subida do nível das águas do mar, causada pelas mudanças climáticas em curso. Na bacia do Zambeze espera-se que a intrusão salina atinja 28 quilómetros, rio acima, afectando seriamente uma área de 240 quilómetros quadrados enquanto no Búzi, a salinização avançará 20 quilómetros à montante e no Save 16, criando alto impacto no solo e na vegetação, numa área de 19 e 170 quilómetros quadrados, respectivamente.
A região Norte oferece a melhor oportunidade para Moçambique beneficiar dos efeitos positivos das mudanças climáticas, independentemente das acções tomadas pelos países vizinhos. Contudo, qualquer impacto positivo que as mudanças climáticas possam ter nesta região, por exemplo o aumento da precipitação nos meses de Janeiro a Março, será superado pelos efeitos negativos da degradação ambiental resultante duma exploração não sustentável dos recursos naturais, que actualmente se verifica naquela região do país.
O estudo de que temos feito referência foi realizado por 17 Especialistas, nacionais e estrangeiros, dos ramos da climatologia, hidrologia, oceanografia, agricultura, saúde, fogos, socio-economia, gestão de risco, quadro jurídico, vulnerabilidade e coordenação.
O mesmo conclui que a maior parte dos impactos das mudanças climáticas em Moçambique serão sentidos na forma de um aumento do risco, áreas abrangidas, intensidade e frequência dos desastres naturais. O documento foi apresentado pelo académico Rui Brito, da Faculdade de Agronomia, da Universidade Eduardo Mondlane, no seminário de preparação da participação de Moçambique na Décima Quinta Conferência das Partes sobre Mudanças Climáticas-COP15, realizado em finais de Outubro, na capital do país. (x)
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